"A natureza me tirou a audição aos poucos, ao longo de 18 anos... Mas na caminhada da vida eu encontrei a Libras e fui descobrindo que com ela eu teria namorado, ótimos amigos, muita diversão, muito aprendizado, desenvolvimento profissional e pessoal. Hoje a minha vida gira em torno da Língua de Sinais, não sei mais viver sem ela, pois está na minha alma, nos meu sonhos, na minha personalidade, na minha Identidade Surda." (Mariana Hora, 2010)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Denúncia Transporte Público

Carta Aberta

Reclamação/Denúncia de desrespeito aos direitos das pessoas com
deficiência e idosos no Sistema de Transporte Público da Região
Metropolitana de Recife.

Para: Grande Recife Consórcio de Transportes

CC: Superintendência Estadual de Apoio à Pessoa com Deficiência (SEAD),
Secretaria de Transportes do Estado de Pernambuco,
Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência de Pernambuco,
Núcleo da Diversidade do Ministério Público de Pernambuco.

Há 8 anos utilizo o transporte coletivo na Região Metropolitana de Recife (RMR) diariamente. Como surda, tenho direito a gratuidade através da Carteira de Livre Acesso (Lei Estadual nº 11.897/00). Ao longo deste tempo venho observando, vivendo e sofrendo com várias situações de desrespeito aos direitos das pessoas com deficiência e/ou idosos nos ônibus:
  • Longa espera
  • Ônibus lotado
  • Pessoas (sem deficiência e não idosos) sentam-se nas cadeiras reservadas às pessoa com deficiência, idosos e gestantes.
  • Motoristas que não tem paciência de esperar o idoso subir com calma no ônibus.
  • Motorista que não permite a entrada de idoso ou pessoa com deficiência pela porta traseira, quando a parte reservada na frente está lotada.
  • Motoristas e/ou cobradores que acusam pessoas surdas ou com deficiência auditiva de estar fingindo e sua carteira de livre acesso ser falsa.
  • Entre outras situações...
Nesta semana me deparei com mais um desrespeito às pessoas com deficiência e idosos. Há cerca de 8 meses resido em Nossa Senhora do Ó, distrito de Ipojuca, e utilizava a linha “191– Recife/Porto de Galinhas” em meus deslocamentos, usufruindo da gratuidade. Esta linha já tinha um serviço precário, com intervalo de 30 minutos entre os ônibus. Sempre ficava superlotada nos horários de pico, pois é bastante utilizada pelos trabalhadores, estudantes, idosos e pessoas com deficiência que precisam se deslocar entre Porto de Galinhas e Recife ou vive-versa.

Desde domingo (06/02/2011) a situação ficou pior, a linha foi desmembrada em 3, conforme divulgado pelo Grande Recife. Sendo que, somente uma das três linhas atende às pessoas com deficiência e idosos, oferecendo o serviço de gratuidade (Linha 196 – Recife/Porto de Galinhas (IMIP)). Tal linha, só conta com 2 ônibus que fazem 7 viagens diárias, com intervalo mínimo de 2h entre um e outro, conforme informaram pelo 0800 081 0158 e no site (http://www.granderecife.pe.gov.br/noticias_detalhe.asp?id=1464). ISTO É UM ABSURDO!!!

O município de Ipojuca faz parte da RMR, está passando por um momento de crescimento de empregos com a chegada de várias indústrias e outros empreendimentos atraídos pelo Porto de Suape, Refinaria e Estaleiro... A população idosa e com deficiência da região está tendo seu direito de ir e vir bastante limitado, principalmente quem precisa ir para Nossa Senhora do Ó, Porto de Galinhas, Maracaípe, Camela e Serrambi, bairros que são precariamente atendidos pelo sistema de transporte público. Ressalto que os microônibus, vans e kombis (transporte complementar) não oferecem o serviço de gratuidade para pessoas com deficiência e idosos. E, as tarifas das 3 linhas “Recife/Porto de Galinhas” são caríssimas.

O Grande Recife diz que “Ampliou o atendimento às praias do litoral sul”, eu vejo que essa “ampliação” visou somente aos turistas, porque para a população de baixa renda, trabalhadores, estudantes, idosos, pessoas com deficiência... essa mudança foi péssima!

Exijo a volta das viagens com intervalo de 30 minutos atendendo às pessoas com deficiência e idosos (gratuidade).

Ao invés de melhorar o serviço de transporte público, oferecer mais acessibilidade para pessoas com deficiência e idosos, vocês ignoram esse segmento populacional e seguem o caminho do neoliberalismo, restringindo ainda mais os diretos sociais da população.

Não venham me dizer que a gratuidade para pessoas com deficiência e idosos no sistema de transporte público custa caro. Diminuam os altíssimos salários, dos Desembargadores, Juízes, Senadores, Deputados, Presidente da República, Governadores, Prefeitos etc... vocês encontrão dinheiro.

Respeito e acessibilidade às pessoas com deficiência e idosos!

Ipojuca, 10 de fevereiro de 2011.

Mariana Marques da Hora
Surda
Assistente Social
Professora de Libras

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A luta do meu SER pelo seu direito de SER

Numa tarde de sol, nasci saudável num pequeno hospital de uma cidade vizinha da
capital pernambucana. Fui criada em uma família pequena em que todos falam a
língua oral portugesa. Cresci e logo já estava falando essa língua, assim, ninguém
percerbeu que dentro de mim havia um SER, que estava dormindo.

Quatro anos depois o tal SER desconhecido começou a acordar, a mamãe chorou,
a família toda se preocupou. As fonoadiológas foram logo acalmar todos: “é só um
probleminha que vai ser resolvido com um aprelhinho”. E assim começou o processo
de tentar matar o tal SER, mas esse SER não morre, afinal é minha essência.

Fui crescendo e vivendo na aparência de SER OUVINTE. Com os aparelhos nos
ouvidos frequentei escolas onde só havia seres essencialmente ouvintes, sofri com
muitas limitações. Aí vocês podem perguntar: quem não sofre com limitações? É
verdade, todo nós, humanos, temos limitações e devemos nos esforçar para vencê-
las. Foi o que fiz, lutei e venci. Passei no primeiro e único vestibular que fiz, estudei
na melhor Universidade Pública do Nordeste, me tornei Bacharel em Serviço Social
aos 21 anos de idade. Antes mesmo de formar já tinha sido aprovada em concurso
público. Eu venci os primeiros desafios profissionais. Também venci alguns desafios
pessoais, faltam outros que estarei sempre tentando vencê-los ao longo da vida… ao
vencê-los surgem outros desafios.

Apesar de lutar determinada a realizar meu sonho de ter uma carreira profissional,
o meu SER foi oprimido durante os primeiros 17 anos de minha vida. Oprimido pela
sociedade que hegemonicamente prefere o outro SER, o ouvinte, aquele que tem os
cinco sentidos funcionando “corretamente”.

As limitações do meio social somadas à opressão ao meu SER me transformaram
numa mulher solitária, com pouquissimos amigos, com um sentimento inesplicável
de vazio interior. Só com 17 anos de idade fui descobrir que o vazio que sentia era por
não ter contato com nenhum outro SER “igual” a mim.

Foi no contato com a língua dos que são “iguais” a mim que o meu SER começou a
ficar mais alegre, a se abrir para novas amizades, a ter mais coragem pra enfrentar
aqueles que o oprimem. Essa língua que eu antes não conhecia, na verdade era a
língua da ensencia do meu SER, ele precisava dela pra se sobreviver. E, foi através
dela que eu pude acabar com sentimento de solidão, com o vazio dentro de mim.
Ganhei dezenas de amigos, centenas de colegas, todos tem dentro de si um SER “igual”
ao meu, todos se expresssam através de línguas visuais-espaciais. Assim nós
dizemos: “escuto pelos olhos e falo com as mãos”.

Hoje tenho 22 anos de idade, e gostaria de dizer a vocês que os últimos 5 anos foram
os melhores da minha vida, porque conquistei autonomia, coragem e sobretudo
descobri a minha identidade, o meu SER. Descobri que sou um SER SURDO. Antes
eu era deficiente, diferente, especial, excepcional, hoje eu sou simplesmente SURDA,

e “grito” bem forte: SOU SURDA COM MUITO ORGULHO!

No entanto a sociedade continua a reprimir as línguas de sinais e insistem em dizer
que os surdos precisam ser reabilitados, que a surdez precisa ser curada, que a
cultura surda não existe…

A sociedade continua a dizer pra mim que não sou surda, preferem dizer: “você só
tem um probleminha pra escutar, mas você é uma pessoa normal”. Eu respondo: “sim,
sou normal, assim como meu noivo surdo é normal, dezenas de amigos surdos são
normais, centenas de surdos que conheço no Brasil e no mundo são normais.”

Durante os anos em que eu estava entrando no mundo surdo aos poucos, também
estava cursando a faculdade… nesse tempo descobri que é impossível separar o EU
profissional do EU pessoal. Na verdade são apenas um, então não posso ser ouvinte
no trabalho e surda na vida pessoal. Alias é impossível eu ser ouvinte, a natureza me
tirou o sentido da audição e, ele não me faz falta.

Quando eu entrei verdadeiramente no mundo surdo, há quase 3 anos atrás, com
ajuda do meu namorado surdo, passei a lutar pela liberdade do meu SER e pelos
diretos das pessoas surdas no Brasil, sou militante, sou pesquisadora, vivo e sinto na
pele o preconceito, a discriminação, a opressão contra mim e aos surdos/as.

Ao contrário do que muita gente pensa, não somos nem queremos formar um gueto,
viver só entre surdos. Nós queremos apenas respeito à nossa língua, à nossa cultura,
ao nosso SER. Assim, mundo ouvinte e mundo surdo podem conviver juntos.

Depois de passar quase uma semana em Florianópolis participando do 5º Congresso
Internacional de Surdos Academicos e Pesquisadores (5th Deaf Academics and
Reaserchers) voltei à minha terra refletindo sobre o meu SER. E cheguei a conclusão
de que a falta de acessibilidade, a falta de informação e até mesmo o preconceito em
alguns espaços marjoritariamente ouvintes a pressão sobre mim é tão forte que as
vezes meu SER fica em silêncio, sufocado. E volto a insistir no aparelho auditivo que
traz um monte de barulhos à minha cabeça, muitas vezes irritantes… e esforço-me a
entender o que outro ouvinte fala em sua língua oral, tarefa árdua que não tem tido
resultados satisfatórios.

As dores causadas pelo uso intensivo dessa pequena maquininha em meu ouvidos
geram às vezes revolta, às vezes tristeza, pela forma como a sociedade trata a nós
surdos/as. Além disso, tem a preocupação pela questão ética da minha profissão, aos
comunicar com um colega de trabalho ou com um usuário na língua dos ouvintes
corro grandes riscos de cometer erros, ou deixar de fazer intervenções importantes.
Eu preciso de recursos de acessibilidade urgentemente.

Não quero ser tratada como uma coitadinha, nem como uma “pessoa especial”. Quero
ser tratada como humana, como mulher, como profissional ética e competente. Eu
quero SER o que SOU. Tenho direito de SER, de mostrar na aparência o que está na
minha ensência… Então, me permitam SER SURDA.
Mariana Hora

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre Teste da Orelinha

Assistam esses vídeos, reflitam e colaborem com sugestões:



Informãções sobre Documentos na hora de votar

Olá pessoal,

Vejam vídeo em Libras e não esqueçam de levar Título de Eleitor e Documento Oficial com foto (RG, Carteira de Motorista ou Carteira de Trabalho) quando forem votar no dia 03 de outubro de 2010.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Recomendação do CONADE

O CONADE (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência) aprovou no dia 15 de julho de 2010 a Recomendação 001/2010 a respeito da acessibilidade para as pessoas surdas e com deficiência auditivas nos concursos públicos.