capital pernambucana. Fui criada em uma família pequena em que todos falam a
língua oral portugesa. Cresci e logo já estava falando essa língua, assim, ninguém
percerbeu que dentro de mim havia um SER, que estava dormindo.
Quatro anos depois o tal SER desconhecido começou a acordar, a mamãe chorou,
a família toda se preocupou. As fonoadiológas foram logo acalmar todos: “é só um
probleminha que vai ser resolvido com um aprelhinho”. E assim começou o processo
de tentar matar o tal SER, mas esse SER não morre, afinal é minha essência.
Fui crescendo e vivendo na aparência de SER OUVINTE. Com os aparelhos nos
ouvidos frequentei escolas onde só havia seres essencialmente ouvintes, sofri com
muitas limitações. Aí vocês podem perguntar: quem não sofre com limitações? É
verdade, todo nós, humanos, temos limitações e devemos nos esforçar para vencê-
las. Foi o que fiz, lutei e venci. Passei no primeiro e único vestibular que fiz, estudei
na melhor Universidade Pública do Nordeste, me tornei Bacharel em Serviço Social
aos 21 anos de idade. Antes mesmo de formar já tinha sido aprovada em concurso
público. Eu venci os primeiros desafios profissionais. Também venci alguns desafios
pessoais, faltam outros que estarei sempre tentando vencê-los ao longo da vida… ao
vencê-los surgem outros desafios.
Apesar de lutar determinada a realizar meu sonho de ter uma carreira profissional,
o meu SER foi oprimido durante os primeiros 17 anos de minha vida. Oprimido pela
sociedade que hegemonicamente prefere o outro SER, o ouvinte, aquele que tem os
cinco sentidos funcionando “corretamente”.
As limitações do meio social somadas à opressão ao meu SER me transformaram
numa mulher solitária, com pouquissimos amigos, com um sentimento inesplicável
de vazio interior. Só com 17 anos de idade fui descobrir que o vazio que sentia era por
não ter contato com nenhum outro SER “igual” a mim.
Foi no contato com a língua dos que são “iguais” a mim que o meu SER começou a
ficar mais alegre, a se abrir para novas amizades, a ter mais coragem pra enfrentar
aqueles que o oprimem. Essa língua que eu antes não conhecia, na verdade era a
língua da ensencia do meu SER, ele precisava dela pra se sobreviver. E, foi através
dela que eu pude acabar com sentimento de solidão, com o vazio dentro de mim.
Ganhei dezenas de amigos, centenas de colegas, todos tem dentro de si um SER “igual”
ao meu, todos se expresssam através de línguas visuais-espaciais. Assim nós
dizemos: “escuto pelos olhos e falo com as mãos”.
Hoje tenho 22 anos de idade, e gostaria de dizer a vocês que os últimos 5 anos foram
os melhores da minha vida, porque conquistei autonomia, coragem e sobretudo
descobri a minha identidade, o meu SER. Descobri que sou um SER SURDO. Antes
eu era deficiente, diferente, especial, excepcional, hoje eu sou simplesmente SURDA,
e “grito” bem forte: SOU SURDA COM MUITO ORGULHO!
No entanto a sociedade continua a reprimir as línguas de sinais e insistem em dizer
que os surdos precisam ser reabilitados, que a surdez precisa ser curada, que a
cultura surda não existe…
A sociedade continua a dizer pra mim que não sou surda, preferem dizer: “você só
tem um probleminha pra escutar, mas você é uma pessoa normal”. Eu respondo: “sim,
sou normal, assim como meu noivo surdo é normal, dezenas de amigos surdos são
normais, centenas de surdos que conheço no Brasil e no mundo são normais.”
Durante os anos em que eu estava entrando no mundo surdo aos poucos, também
estava cursando a faculdade… nesse tempo descobri que é impossível separar o EU
profissional do EU pessoal. Na verdade são apenas um, então não posso ser ouvinte
no trabalho e surda na vida pessoal. Alias é impossível eu ser ouvinte, a natureza me
tirou o sentido da audição e, ele não me faz falta.
Quando eu entrei verdadeiramente no mundo surdo, há quase 3 anos atrás, com
ajuda do meu namorado surdo, passei a lutar pela liberdade do meu SER e pelos
diretos das pessoas surdas no Brasil, sou militante, sou pesquisadora, vivo e sinto na
pele o preconceito, a discriminação, a opressão contra mim e aos surdos/as.
Ao contrário do que muita gente pensa, não somos nem queremos formar um gueto,
viver só entre surdos. Nós queremos apenas respeito à nossa língua, à nossa cultura,
ao nosso SER. Assim, mundo ouvinte e mundo surdo podem conviver juntos.
Depois de passar quase uma semana em Florianópolis participando do 5º Congresso
Internacional de Surdos Academicos e Pesquisadores (5th Deaf Academics and
Reaserchers) voltei à minha terra refletindo sobre o meu SER. E cheguei a conclusão
de que a falta de acessibilidade, a falta de informação e até mesmo o preconceito em
alguns espaços marjoritariamente ouvintes a pressão sobre mim é tão forte que as
vezes meu SER fica em silêncio, sufocado. E volto a insistir no aparelho auditivo que
traz um monte de barulhos à minha cabeça, muitas vezes irritantes… e esforço-me a
entender o que outro ouvinte fala em sua língua oral, tarefa árdua que não tem tido
resultados satisfatórios.
As dores causadas pelo uso intensivo dessa pequena maquininha em meu ouvidos
geram às vezes revolta, às vezes tristeza, pela forma como a sociedade trata a nós
surdos/as. Além disso, tem a preocupação pela questão ética da minha profissão, aos
comunicar com um colega de trabalho ou com um usuário na língua dos ouvintes
corro grandes riscos de cometer erros, ou deixar de fazer intervenções importantes.
Eu preciso de recursos de acessibilidade urgentemente.
Não quero ser tratada como uma coitadinha, nem como uma “pessoa especial”. Quero
ser tratada como humana, como mulher, como profissional ética e competente. Eu
quero SER o que SOU. Tenho direito de SER, de mostrar na aparência o que está na
minha ensência… Então, me permitam SER SURDA.
Mariana Hora
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