"A natureza me tirou a audição aos poucos, ao longo de 18 anos... Mas na caminhada da vida eu encontrei a Libras e fui descobrindo que com ela eu teria namorado, ótimos amigos, muita diversão, muito aprendizado, desenvolvimento profissional e pessoal. Hoje a minha vida gira em torno da Língua de Sinais, não sei mais viver sem ela, pois está na minha alma, nos meu sonhos, na minha personalidade, na minha Identidade Surda." (Mariana Hora, 2010)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A luta do meu SER pelo seu direito de SER

Numa tarde de sol, nasci saudável num pequeno hospital de uma cidade vizinha da
capital pernambucana. Fui criada em uma família pequena em que todos falam a
língua oral portugesa. Cresci e logo já estava falando essa língua, assim, ninguém
percerbeu que dentro de mim havia um SER, que estava dormindo.

Quatro anos depois o tal SER desconhecido começou a acordar, a mamãe chorou,
a família toda se preocupou. As fonoadiológas foram logo acalmar todos: “é só um
probleminha que vai ser resolvido com um aprelhinho”. E assim começou o processo
de tentar matar o tal SER, mas esse SER não morre, afinal é minha essência.

Fui crescendo e vivendo na aparência de SER OUVINTE. Com os aparelhos nos
ouvidos frequentei escolas onde só havia seres essencialmente ouvintes, sofri com
muitas limitações. Aí vocês podem perguntar: quem não sofre com limitações? É
verdade, todo nós, humanos, temos limitações e devemos nos esforçar para vencê-
las. Foi o que fiz, lutei e venci. Passei no primeiro e único vestibular que fiz, estudei
na melhor Universidade Pública do Nordeste, me tornei Bacharel em Serviço Social
aos 21 anos de idade. Antes mesmo de formar já tinha sido aprovada em concurso
público. Eu venci os primeiros desafios profissionais. Também venci alguns desafios
pessoais, faltam outros que estarei sempre tentando vencê-los ao longo da vida… ao
vencê-los surgem outros desafios.

Apesar de lutar determinada a realizar meu sonho de ter uma carreira profissional,
o meu SER foi oprimido durante os primeiros 17 anos de minha vida. Oprimido pela
sociedade que hegemonicamente prefere o outro SER, o ouvinte, aquele que tem os
cinco sentidos funcionando “corretamente”.

As limitações do meio social somadas à opressão ao meu SER me transformaram
numa mulher solitária, com pouquissimos amigos, com um sentimento inesplicável
de vazio interior. Só com 17 anos de idade fui descobrir que o vazio que sentia era por
não ter contato com nenhum outro SER “igual” a mim.

Foi no contato com a língua dos que são “iguais” a mim que o meu SER começou a
ficar mais alegre, a se abrir para novas amizades, a ter mais coragem pra enfrentar
aqueles que o oprimem. Essa língua que eu antes não conhecia, na verdade era a
língua da ensencia do meu SER, ele precisava dela pra se sobreviver. E, foi através
dela que eu pude acabar com sentimento de solidão, com o vazio dentro de mim.
Ganhei dezenas de amigos, centenas de colegas, todos tem dentro de si um SER “igual”
ao meu, todos se expresssam através de línguas visuais-espaciais. Assim nós
dizemos: “escuto pelos olhos e falo com as mãos”.

Hoje tenho 22 anos de idade, e gostaria de dizer a vocês que os últimos 5 anos foram
os melhores da minha vida, porque conquistei autonomia, coragem e sobretudo
descobri a minha identidade, o meu SER. Descobri que sou um SER SURDO. Antes
eu era deficiente, diferente, especial, excepcional, hoje eu sou simplesmente SURDA,

e “grito” bem forte: SOU SURDA COM MUITO ORGULHO!

No entanto a sociedade continua a reprimir as línguas de sinais e insistem em dizer
que os surdos precisam ser reabilitados, que a surdez precisa ser curada, que a
cultura surda não existe…

A sociedade continua a dizer pra mim que não sou surda, preferem dizer: “você só
tem um probleminha pra escutar, mas você é uma pessoa normal”. Eu respondo: “sim,
sou normal, assim como meu noivo surdo é normal, dezenas de amigos surdos são
normais, centenas de surdos que conheço no Brasil e no mundo são normais.”

Durante os anos em que eu estava entrando no mundo surdo aos poucos, também
estava cursando a faculdade… nesse tempo descobri que é impossível separar o EU
profissional do EU pessoal. Na verdade são apenas um, então não posso ser ouvinte
no trabalho e surda na vida pessoal. Alias é impossível eu ser ouvinte, a natureza me
tirou o sentido da audição e, ele não me faz falta.

Quando eu entrei verdadeiramente no mundo surdo, há quase 3 anos atrás, com
ajuda do meu namorado surdo, passei a lutar pela liberdade do meu SER e pelos
diretos das pessoas surdas no Brasil, sou militante, sou pesquisadora, vivo e sinto na
pele o preconceito, a discriminação, a opressão contra mim e aos surdos/as.

Ao contrário do que muita gente pensa, não somos nem queremos formar um gueto,
viver só entre surdos. Nós queremos apenas respeito à nossa língua, à nossa cultura,
ao nosso SER. Assim, mundo ouvinte e mundo surdo podem conviver juntos.

Depois de passar quase uma semana em Florianópolis participando do 5º Congresso
Internacional de Surdos Academicos e Pesquisadores (5th Deaf Academics and
Reaserchers) voltei à minha terra refletindo sobre o meu SER. E cheguei a conclusão
de que a falta de acessibilidade, a falta de informação e até mesmo o preconceito em
alguns espaços marjoritariamente ouvintes a pressão sobre mim é tão forte que as
vezes meu SER fica em silêncio, sufocado. E volto a insistir no aparelho auditivo que
traz um monte de barulhos à minha cabeça, muitas vezes irritantes… e esforço-me a
entender o que outro ouvinte fala em sua língua oral, tarefa árdua que não tem tido
resultados satisfatórios.

As dores causadas pelo uso intensivo dessa pequena maquininha em meu ouvidos
geram às vezes revolta, às vezes tristeza, pela forma como a sociedade trata a nós
surdos/as. Além disso, tem a preocupação pela questão ética da minha profissão, aos
comunicar com um colega de trabalho ou com um usuário na língua dos ouvintes
corro grandes riscos de cometer erros, ou deixar de fazer intervenções importantes.
Eu preciso de recursos de acessibilidade urgentemente.

Não quero ser tratada como uma coitadinha, nem como uma “pessoa especial”. Quero
ser tratada como humana, como mulher, como profissional ética e competente. Eu
quero SER o que SOU. Tenho direito de SER, de mostrar na aparência o que está na
minha ensência… Então, me permitam SER SURDA.
Mariana Hora

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sobre Teste da Orelinha

Assistam esses vídeos, reflitam e colaborem com sugestões:



Informãções sobre Documentos na hora de votar

Olá pessoal,

Vejam vídeo em Libras e não esqueçam de levar Título de Eleitor e Documento Oficial com foto (RG, Carteira de Motorista ou Carteira de Trabalho) quando forem votar no dia 03 de outubro de 2010.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Recomendação do CONADE

O CONADE (Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência) aprovou no dia 15 de julho de 2010 a Recomendação 001/2010 a respeito da acessibilidade para as pessoas surdas e com deficiência auditivas nos concursos públicos.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Oração do Pai Nosso em Libras

Seqüência de 4 vídeos em Libras, que meu noivo, Rafael Ferraz, explica sobre a sinalização da oração do Pai Nosso em Libras.


Vídeo 1:





Vídeo 2:





Vídeo 3:





Vídeo 4: 


DEAFHOOD - SER SURDO

terça-feira, 6 de abril de 2010

Meu TCC - Serviço Social/UFPE




Caros(as) Amigos(as) e Colegas,

É com alegria que venho informar a vocês que o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) produzido junto com minha amiga Jozibel e orientado pelo professor Denis Bernardes, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, está disponível na internet, no site da Editora Arara Azul, especializada na temática da surdez, Libras, Cultura, Comunidade e Identidade Surda...

Assim, a quem interessar, uma ótima leitura!


quarta-feira, 31 de março de 2010

Uma pequena síntese da minha história


Eu nasci um dia antes da promulgação da Constituição Federal do Brasil, em 1988. Esse documento que um marco importantíssimo na História brasileira anos mais tarde se transformaria em um instrumento de luta presente na minha vida como cidadã e como profissional.

Nasci saudável, até hoje estou saudável como qualquer outra pessoa, fui um bebê muito paparicado e amado. Fui crescendo, os sons entravam pelos meus ouvidos e eu os reconhecia, até que começou a chegar a minha voz, naturalmente, como qualquer outra criança ouvinte.

Quatro anos mais tarde, eu já não percebia mais todos os sons que entravam nos meus ouvidos, mas eu era tão inocente que nem percebi. Quando meus familiares perceberam, veio o diagnóstico de médicos e fonoaudiólogos “Ela tem um probleminha nos ouvidos, é deficiente auditiva”. As lágrimas rolaram no rosto da minha mãe e uma tempestade de dúvidas entrou na cabeça da minha família: “Ela precisa ir pra uma escola especial? Ela tem que aprender “gestos”?”. As respostas que os “profissionais” deram foi: Não, escola especial de jeito nenhum, ela tem que continuar na escola que ela está (escola regular de ouvintes)... ela não deve aprender gestos, ela já fala, se aprender gestos vai ter preguiça de falar, ela não precisa de gestos, só precisa de aparelhos auditivos.”

Algum tempo depois comecei a usar um aparelho auditivo... me adaptei rápido àquela máquina, eu realmente ainda era meio ouvinte. Os anos foram passando, minha audição foi diminuindo e fui ficando cada vez mais dependente dos aparelhos auditivos. Eu me aceitava do jeito que eu era, não tinha vergonha de ser “deficiente auditiva”, nem de usar os aparelhos. Mas eu vivia muito sozinha, tinha poucos amigos, quase não saia... isso fez muita falta na adolescência.

Várias vezes nas ruas ou nos ônibus eu vi surdos sinalizando, me deu vontade de conhecer aquele tipo de comunicação, eu queria conhecer pessoas que tinham surdez, como eu...

Depois que passei no vestibular da UFPE, comecei a aprender Libras num curso básico voltado para ouvintes, me apaixonei rapidamente quando descobri complexidade dessa língua. Não parei mais de estudar... aos poucos fui encontrando com surdos... Até que um dia encontrei aquele que seria, uns 3 meses depois, meu primeiro namorado foi ele que me levou para a Comunidade Surda. E foi aí que comecei a despertar dentro de mim a minha Identidade que estava guardada, a Identidade de uma mulher que tem ORGULHO de SER SURDA e de usar a Libras.

Hoje estou formada em Serviço Social, uma profissão apaixonante. Tenho muito mais amigos, surdos e ouvintes, sou feliz! E meu sonho agora é poder juntar Serviço Social com Libras, poder trabalhar em prol do desenvolvimento do POVO SURDO BRASILEIRO!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Bibliografia sobre Surdos



LANE, Harlan. A máscara da benevolência – a comunidade surda amordaçada. Lisboa: Instituto Piaget, 1992.

LONGMAN, Liliane Vieira. Memória de Surdos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, editora Massangana, 2007.

MACHADO, Paulo Cesar. A política educacional de integração/inclusão: um olhar do egresso surdo. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008.

PERLIN, Gladis. Identidades Surdas. In: A surdez: um olhar sobre a diferença. Porto Alegre: Mediação, 1998. p. 51-74.

PINTO, Patrícia Luiza Ferreira. Identidade cultural surda na diversidade brasileira. Revista Espaço, n. 16. Rio de Janeiro: Dezembro de 2001.

QUADROS, Ronice M. de. O Tradutor e Intérprete de Língua de Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa.Secretária de Educação Especial; Brasília: MEC; SEESP, 2007. 2ª Ed.

QUADROS, Ronice. [et. al.]. Exame Prolibras. Florianópolis, 2009.

SACKS, Oliver. Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos Surdos. Rio de Janeiro: Imago editora, 1990.

SKLIAR, Carlos. A surdez – um olhar sobre as diferenças. 3ª ed. Porto Alegre: Mediação, 2005. 

STROBEL, Karin L. As imagens do outro sobre a Cultura Surda. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2008.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Pastoral dos Surdos





Próximo Encontro na Pastoral dos Surdos de Recife será no dia 21 de março de 2010.