"A natureza me tirou a audição aos poucos, ao longo de 18 anos... Mas na caminhada da vida eu encontrei a Libras e fui descobrindo que com ela eu teria namorado, ótimos amigos, muita diversão, muito aprendizado, desenvolvimento profissional e pessoal. Hoje a minha vida gira em torno da Língua de Sinais, não sei mais viver sem ela, pois está na minha alma, nos meu sonhos, na minha personalidade, na minha Identidade Surda." (Mariana Hora, 2010)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

5 anos, surdo, sem língua


Há dois anos atrás conheci um garoto surdo e sua mãe no HGF, no setor de próteses. Ele tinha 3 anos e não não tinha língua alguma. Nem Português (claro!), nem Libras, pois a mãe seguia as orientações das fonoaudiólogas do HGF de não lhe permitir contato com Libras, tampouco matriculá-lo numa escola bilíngue. Lembro-me que insisti que ela fosse com ele conhecer o Filippo Smaldone. Não foram. Semana passada, voltei a encontrá-lo e à sua mãe. Continua sem língua alguma. Expressa-se com gritos e gestos. É como se tivesse alguma disfunção muito aguda (desculpem-me a atecnia das minhas expressões, não sei se está correto falar assim).

Naturalmente que crianças com deficiência intelectual na idade dele, que frequentam escolas e têm apoio familiar e profissional adequado, se expressam e se comunicam de formas muito mais elaboradas e adequadas. Estas últimas têm língua (o Português), pois participam de comunidades lusófonas (escola, família, vizinhança) que as ajudam a se desenvolver linguisticamente, psiquicamente, cognitivamente. Mas as crianças surdas, se lhe retiram a escola bilíngue, o contato diário e intensivo com outras crianças e adultos surdos (professores, pais de surdos de outras crianças surdas), então elas crescem com retardo em seu desenvolvimento linguístico, emocional, intelectual...


Desta última vez nós nos encontramos no Filippo Smaldone. O menino fez Implante Coclear, ativado há seis meses. A orientação da fonoaudióloga continua a mesma, agora com a promessa de que o IC vai realizar o que ela lhes tinha prometido há muito anos! O pequeno Hans (nome fictício) não sabe distinguir cores, comidas, brinquedos e colegas; não sabe contar o que fez no fim de semana ou expressar o que deseja fazer no próximo - coisa que toda criança surda sinalizante em sua idade sabe fazer muito bem! Sem nenhuma língua, sem ter amadurecido qualquer noção ou experiência de comunicação, o IC até agora não lhe possibilitou muita coisa em língua portuguesa (o máximo que conseguiu é ele recohecer seu nome, quando chamado pela mãe). Dessa vez, no entanto, a mãe pelo menos o matriculou no Filippo Smaldone...


Vejam que um crime muito sério foi cometido contra essa criança, que chegará aos 6 anos sem língua alguma e todo seu desenvolvimento comprometido. Responsabilidade disso: de profissionais da saúde, de professores, da família... e da atual política de inclusão educacional, que despreza a especificidade linguística do surdo e trata a língua de sinais como se fosse uma questão de "acessibilidade". Ora, língua não é prótese, não é rampa, não é cadeira de rodas; ninguém pensa pela rampa, pela prótese ou pela cadeira. As pessoas pensamos na língua, pela língua, com a língua. Sem língua, não há pessoa, não há sujeito. Matriculado no Filippo Smaldone, o pequeno Hans agora terá a chance de adquirir uma língua e adequar-se aos poucos ao desenvolvimento próprio à sua idade. Mas os anos anteriores, as experiências vividas que não vieram à língua, que não ganharam forma simbólica, esses anos aí estão irremediavelmente perdidos para Hans. Quem pagará por esse crime? E como deteremos os crimes semelhantes que estão sendo cometidos nesse momento, aos milhares, em todo o país?
 
Autor: Emiliano Aquino (Originalmente publicado em seu facebook, em 19/02/2012)