Há dois anos atrás conheci um garoto surdo e sua mãe no HGF, no setor de próteses. Ele tinha 3 anos e não não tinha língua alguma. Nem Português (claro!), nem Libras, pois a mãe seguia as orientações das fonoaudiólogas do HGF de não lhe permitir contato com Libras, tampouco matriculá-lo numa escola bilíngue. Lembro-me que insisti que ela fosse com ele conhecer o Filippo Smaldone. Não foram. Semana passada, voltei a encontrá-lo e à sua mãe. Continua sem língua alguma. Expressa-se com gritos e gestos. É como se tivesse alguma disfunção muito aguda (desculpem-me a atecnia das minhas expressões, não sei se está correto falar assim).
Naturalmente que crianças com deficiência intelectual na idade dele, que frequentam escolas e têm apoio familiar e profissional adequado, se expressam e se comunicam de formas muito mais elaboradas e adequadas. Estas últimas têm língua (o Português), pois participam de comunidades lusófonas (escola, família, vizinhança) que as ajudam a se desenvolver linguisticamente, psiquicamente, cognitivamente. Mas as crianças surdas, se lhe retiram a escola bilíngue, o contato diário e intensivo com outras crianças e adultos surdos (professores, pais de surdos de outras crianças surdas), então elas crescem com retardo em seu desenvolvimento linguístico, emocional, intelectual...
Desta última vez nós nos encontramos no Filippo Smaldone. O menino fez Implante Coclear, ativado há seis meses. A orientação da fonoaudióloga continua a mesma, agora com a promessa de que o IC vai realizar o que ela lhes tinha prometido há muito anos! O pequeno Hans (nome fictício) não sabe distinguir cores, comidas, brinquedos e colegas; não sabe contar o que fez no fim de semana ou expressar o que deseja fazer no próximo - coisa que toda criança surda sinalizante em sua idade sabe fazer muito bem! Sem nenhuma língua, sem ter amadurecido qualquer noção ou experiência de comunicação, o IC até agora não lhe possibilitou muita coisa em língua portuguesa (o máximo que conseguiu é ele recohecer seu nome, quando chamado pela mãe). Dessa vez, no entanto, a mãe pelo menos o matriculou no Filippo Smaldone...
Vejam que um crime muito sério foi cometido contra essa criança, que chegará aos 6 anos sem língua alguma e todo seu desenvolvimento comprometido. Responsabilidade disso: de profissionais da saúde, de professores, da família... e da atual política de inclusão educacional, que despreza a especificidade linguística do surdo e trata a língua de sinais como se fosse uma questão de "acessibilidade". Ora, língua não é prótese, não é rampa, não é cadeira de rodas; ninguém pensa pela rampa, pela prótese ou pela cadeira. As pessoas pensamos na língua, pela língua, com a língua. Sem língua, não há pessoa, não há sujeito. Matriculado no Filippo Smaldone, o pequeno Hans agora terá a chance de adquirir uma língua e adequar-se aos poucos ao desenvolvimento próprio à sua idade. Mas os anos anteriores, as experiências vividas que não vieram à língua, que não ganharam forma simbólica, esses anos aí estão irremediavelmente perdidos para Hans. Quem pagará por esse crime? E como deteremos os crimes semelhantes que estão sendo cometidos nesse momento, aos milhares, em todo o país?
Naturalmente que crianças com deficiência intelectual na idade dele, que frequentam escolas e têm apoio familiar e profissional adequado, se expressam e se comunicam de formas muito mais elaboradas e adequadas. Estas últimas têm língua (o Português), pois participam de comunidades lusófonas (escola, família, vizinhança) que as ajudam a se desenvolver linguisticamente, psiquicamente, cognitivamente. Mas as crianças surdas, se lhe retiram a escola bilíngue, o contato diário e intensivo com outras crianças e adultos surdos (professores, pais de surdos de outras crianças surdas), então elas crescem com retardo em seu desenvolvimento linguístico, emocional, intelectual...
Desta última vez nós nos encontramos no Filippo Smaldone. O menino fez Implante Coclear, ativado há seis meses. A orientação da fonoaudióloga continua a mesma, agora com a promessa de que o IC vai realizar o que ela lhes tinha prometido há muito anos! O pequeno Hans (nome fictício) não sabe distinguir cores, comidas, brinquedos e colegas; não sabe contar o que fez no fim de semana ou expressar o que deseja fazer no próximo - coisa que toda criança surda sinalizante em sua idade sabe fazer muito bem! Sem nenhuma língua, sem ter amadurecido qualquer noção ou experiência de comunicação, o IC até agora não lhe possibilitou muita coisa em língua portuguesa (o máximo que conseguiu é ele recohecer seu nome, quando chamado pela mãe). Dessa vez, no entanto, a mãe pelo menos o matriculou no Filippo Smaldone...
Vejam que um crime muito sério foi cometido contra essa criança, que chegará aos 6 anos sem língua alguma e todo seu desenvolvimento comprometido. Responsabilidade disso: de profissionais da saúde, de professores, da família... e da atual política de inclusão educacional, que despreza a especificidade linguística do surdo e trata a língua de sinais como se fosse uma questão de "acessibilidade". Ora, língua não é prótese, não é rampa, não é cadeira de rodas; ninguém pensa pela rampa, pela prótese ou pela cadeira. As pessoas pensamos na língua, pela língua, com a língua. Sem língua, não há pessoa, não há sujeito. Matriculado no Filippo Smaldone, o pequeno Hans agora terá a chance de adquirir uma língua e adequar-se aos poucos ao desenvolvimento próprio à sua idade. Mas os anos anteriores, as experiências vividas que não vieram à língua, que não ganharam forma simbólica, esses anos aí estão irremediavelmente perdidos para Hans. Quem pagará por esse crime? E como deteremos os crimes semelhantes que estão sendo cometidos nesse momento, aos milhares, em todo o país?
Autor: Emiliano Aquino (Originalmente publicado em seu facebook, em 19/02/2012)